Sábado, 11 de Julho de 2009

"Retalhos" - Craig Thompson

A infância e a adolescência podem ser fases bem difíceis, com poder para definir tudo o que virá pela vida adulta. Os fantasmas dessa época são capazes de perdurar eternamente se não forem exorcizados com o tempo. O americano Craig Thompson, passou por momentos bem complicados nesses períodos e através de “Retalhos”, faz sua psicanálise pessoal e tenta colocar para fora certos sentimentos.
“Retalhos” saiu originalmente em 2003 e abocanhou os prêmios mais importantes da indústria dos quadrinhos (Harvey e Eisner por exemplo). No Brasil ganha luz nesse ano pela Companhia das Letras, que inaugura uma linha editorial voltada só para a nona arte (“Quadrinhos na Cia”), sendo uma das quatro obras iniciais do projeto. A obra tem quase 600 páginas e passa bem longe das histórias tradicionais do gênero.
“Retalhos” é um trabalho que se direciona muito mais para o campo da literatura tradicional do que para o que se costuma ver freqüentemente nos quadrinhos. É um relato sobre os primeiros anos da vida de uma pessoa, um relato que em muitas vezes não tem ação nenhuma, são quadros e mais quadros sem frases ou reações, o que dá um tom especialíssimo a obra, não a situando no lugar comum.
O trabalho é praticamente autobiográfico, o próprio autor disse em entrevista que “Tudo que está nas páginas do livro realmente aconteceu. A ficção está nos detalhes que eu escolhi omitir.” Craig Thompson foi criado em uma comunidade rural do estado de Wisconsin, embaixo de uma forte pressão religiosa, uma relação conflituosa com os outros alunos da escola e com seu irmão, além de incompreensão e abusos sexuais.
Com traços em preto e branco que conseguem transmitir a sensação do momento, Craig usa de metáforas visuais para contar sua história que depois dos relatos iniciais acaba por desaguar em um amor juvenil, com todas as descobertas, sensações, medos e delírios envolvidos nessa idade. “Retalhos” é na sua essência uma história de descobrimento, mas também é sobre amar e ser amado, sendo que para conseguir fazer esse sentimento perdurar, as vezes é preciso partir e deixar partir.

Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

"Wilco (The Album)" - Wilco - 2009

Quando vi a capa do novo disco do Wilco, a pergunta inicial foi: “Que é isso?”. Mas como a expectativa para alguma coisa nova de Jeff Tweedy e Cia é sempre a maior possível, a estranheza inicial foi posta de lado e “Wilco (The Album)” foi para as caixas de som para ser apreciado. No seu mais recente disco de estúdio, a banda de Chicago mostra a habitual qualidade, apesar de não ter a excelência de outros trabalhos.
“Wilco (The Album)” é daqueles discos que vez ou outra uma banda lança reunindo despretensiosamente algumas fases da carreira de maneira condensada, como o Sonic Youth de “Rather Ripped” ou o R.E.M de “New Adventures in Hi Fi”. Usando recortes da estréia com “A.M” e retalhos de “Yankee Hotel Foxtrot”, “Summer Teeth” e “Sky Blue Sky”, o álbum se constrói.
Jeff Tweedy e seus parceiros (John Stirratt, Glenn Kotche, Pat Sansone, Nels Cline e Mikael Jorgensen) fazem música com uma sinceridade que em vários momentos beira o absurdo. Logo na abertura, na faixa que dá nome ao disco, o ouvinte se envolve em um pequeno rock de quase três minutos, que desde já passa a figurar em qualquer coletânea que se preze. A partir dela, vários outros bons momentos vão surgindo.
“Bull Black Nova”, a mais longa, traz aquele experimentalismo com truques de estúdio que o grupo sempre brinca. “You And I” é um belíssimo folk que Tweddy canta em parceria com a canadense Feist. Uma das músicas do ano. “You Never Know”, “I'll Flight” e “Sonny Feeling” tem um forte acento pop, enquanto “Country Disappeared” e “Everlasting Everything” surgem com a melancolia.
“Wilco (The Album)” não é o topo da carreira dessa banda que é uma das maiores da atualidade, mas traz canções para serem apreciadas em qualquer hora e lugar. Um disco bem prazeroso de se escutar, onde pequenos toques são descobertos freqüentemente, uma das marcas preferidas do grupo. Jeff Tweedy que já merece a alcunha de gênio há alguns anos, presenteia o mundo com mais toques dessa genialidade.
Mais Wilco? Passe aqui.
Site Oficial: http://www.wilcoworld.net
My Space:
http://www.myspace.com/wilco

Terça-feira, 7 de Julho de 2009

“Joe Strummer – The Future Is Unweritten” - 2007

A frente do The Clash, o músico Joe Strummer entrou para a história do rock mundial. Junto com Mick Jones (guitarra e vocal), Paul Simonon (baixo e vocal) e Topper Headon (bateria) lançou álbuns clássicos e promoveu bastante discussão com a sua postura e o cunho político de suas canções. Este inglês nascido na capital da Turquia, falecido em 22 de dezembro de 2002, ainda hoje representa muita coisa.
Em 2007, o diretor Julian Temple lançou um documentário sobre a vida do artista, chamado “Joe Strummer - The Future Is Unweritten”, que merece a alcunha de obrigatório para quem gosta de música e mais particularmente de rock. Recheado de cenas raras e depoimentos de pessoas das mais diversas searas, o documentário é um retrato preciso e enriquecedor sobre a sua história.
O filme começa com um dos clássicos da banda “White Riot” e se espalha por todos os períodos da vida de Strummer. Relata a infância do menino de classe média, filho de diplomatas, que passou por um colégio interno e em outros que nunca se adequava. Mostra a tragédia do suicídio do irmão que mantinha idéias fascistas, e narra o começo da paixão pela música e seu envolvimento com o movimento punk.
Evidente que a música domina grande parte, com a primeira banda o 101’ers, a trajetória com o The Clash e o renascimento com os Mescaleros. Julian Temple consegue mostrar todos os defeitos humanos e não somente o lado mito de Strummer, o que representa um grande ponto positivo. Intransigente, orgulhoso, independente, genial. Todos esses lados caminham lado a lado durante as duas horas de projeção.
A narração fica por conta de depoimentos atuais, que são entrecortados por trechos de antigas entrevistas e do programa de rádio “London Calling”, que o músico apresentou na BBC entre 1998 e 2002, onde mostrava todo seu ecletismo musical, uma parte do seu legado. Um dos momentos mais emocionantes fica por conta do reencontro com Mick Jones, muitos anos depois em um show beneficente para os bombeiros. De arrepiar.
“Joe Strummer - The Future Is Unweritten” é essencial, uma obra sobre um músico que influenciou gerações e gerações e sempre se manteve fiel aos seus ideais, por mais que isso representasse por muitas vezes danos pessoais. Os depoimentos de nomes como Bono, Flea, Bobby Gillespie, Martin Scorsese, John Cusack, Johnny Deep e Damien Hirst, atestam isso. Strummer faleceu por um defeito cardíaco congênito, uma falha do coração que tanto usou na sua vida e canções.
Site oficial: http://www.joestrummerthemovie.com

Domingo, 5 de Julho de 2009

"Copacabana" - Lobo e Odyr

O bairro de Copacabana no Rio de Janeiro já ganhou inúmeras homenagens, passando por músicas, filmes, peças de teatro, shows e novelas da Globo. O seu nome é capaz de atrair milhares de turistas, mesmo em dias que o seu glamour ficou um pouco para trás. Ao chegar à cidade maravilhosa é impossível não ficar deslumbrado com a beleza da orla e não se render a um chope bem gelado nos quiosques ou bares da beira mar.
Mas a mesma Copacabana que fascina também carrega suas mazelas e seus vícios. Ao passar a noite por suas ruas, um olhar mais atento nos leva a toda uma rede preparada para atender ao turista, explorando a indústria do sexo e outras que caminham junto desta. É em cima desta característica menos bonita, que o roteirista Sandro Lobo e o desenhista Odyr Bernardi, lançam seus olhares no livro em quadrinhos que carrega o nome do bairro.
“Copacabana” saiu este ano pela Editora Desiderata e em suas pouco mais de 200 páginas, destila fartas doses do submundo que permeia a vida noturna carioca na região. Lobo e Odyr mostram um universo com prostitutas, travestis, cafetões, drogas, malandros e turistas que transitam entre o prazer e a enganação. O clima do álbum é um flerte com o noir, onde a arte rabiscada de Odyr faz a cama perfeita para a trama criminosa de Lobo.
A personagem principal é daquelas que apesar de todas as falhas de caráter, acaba por receber uma certa torcida do leitor. Diana é uma mulata com curvas maravilhosas que busca seu espaço nas boates e ruas do bairro, entre tantas outras. Ao mesmo tempo em que precisa sobreviver, tem que mandar dinheiro constantemente para sua mãe, extraído tanto de programas regulares quanto de proveitos extras junto aos seus clientes.
Mesmo precisando da “malandragem” para sobreviver, Diana não se mete em grandes esquemas, mas quando a coisa aperta muito, ela se vê no meio do assassinato de um gringo e de uma companheira de trabalho, com uma grande quantia de dinheiro sumindo no caso. Aí como ela mesmo não cansa de dizer “Fudeu o Cú da Creuza!!”, sendo o seu rebolado mais precioso do que nunca para lhe tirar do caso.
O olhar que o paulista Lobo e o gaúcho Odyr lançam sobre Copacabana é repleto de veracidade e bem contundente. É um olhar que traz personagens que se misturam as belezas naturais e não aparecem nos noticiários (a não ser que aconteça algo grande). Quem que como turista (homem) ao passar pelo bairro não deu uma olhadinha para as meninas da esquina ou passou pela frente da discoteca “Help”, que atire a primeira pedra...

Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

"Bruno, Chefe de Polícia" - Martin Walker

Benoit Courrèges é o chefe de polícia da pequena cidade de St. Denis, localizada no sudoeste da França, na bonita região do Périgord. Em St. Denis, Benoit é mais conhecido como Bruno e leva uma vida extremamente pacata e tranqüila. Como chefe de polícia, tem uma arma que nunca leva consigo e um par de algemas que não sabe ao certo onde está, afinal de contas para lidar com seus deveres perante a comunidade, isso não se faz necessário.
O maior trabalho de Bruno é agir em prol dos habitantes da sua amada cidade, que em dia de feira precisam se “defender” dos inspetores da vigilância sanitária vindos de Bruxelas na Bélgica, sede da União Européia, que tentam impor suas “inadmissíveis” normas para os pães, queijos, patês e vinhos dessa região da França. Os feirantes ainda trazendo consigo resíduos das guerras mundiais no seu corpo, tratam os inspetores como “Gestapo”.
Tudo anda normalmente, quando um velho habitante, imigrante oriundo da Argélia para a França é assassinado, tendo estampado em seu peito o símbolo nazista. Desse momento em diante, Bruno precisa realmente exercer suas funções policiais. Por se tratar de um crime que aponta para questões raciais, diversões órgãos são envolvidos no processo, inclusive o próprio Ministro do Interior do país.
“Bruno, Chefe de Polícia”, chega ao Brasil pela Editora Record, em edição com 300 páginas, um ano após seu lançamento original. Seu autor é o inglês Martin Walker, que além de ser um premiado jornalista, tem um currículo interessante de obras de não-ficção. Por passar seus verões nessa região da França, o autor consegue trazer uma competente verossimilhança de tradições, costumes e personagens.
Na sua trama, Martin Walker adiciona questões políticas conjuntamente com um delicioso banquete de comidas e bebidas, para deixar o leitor com água na boca, sendo o policial Bruno um daqueles personagens que criam empatia imediata com o leitor. “Bruno, Chefe de Polícia” é para ser consumido levemente como uma cerveja ao sol do verão ou um sorvete no meio da rua para apaziguar o calor. Leve e dotado de pequenos prazeres.

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

"Medium, Rare & Remastered" - U2 - 2009

Que o U2 é uma das maiores bandas do mundo, isso ninguém duvida. Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen são responsáveis por alguns discos essenciais, servindo de influência para toda uma geração de bandas. No entanto, vez ou outra o grupo acaba por patinar em cima da sua própria história, tendo sido assim com o famigerado “Pop” de 1997 e esse ano com o ridículo “No Line On The Horizon”, o pior trabalho da sua trajetória.
Em “No Line On The Horizon”, o U2 é uma cópia de si mesmo, sem muita inspiração, parecendo estar sem a mínima vontade de gravar as canções ali presentes. Mas como o U2 é uma grande banda e pode se esperar de tudo, eis que no mesmo ano é liberado no seu site oficial uma coletânea com sobras de estúdio e algumas raridades, intitulada “Medium, Rare & Remastered”, que é infinitamente superior ao novo lançamento.
Temos sobras de discos recentes como o mediano “How to Dismantle An Atomic Bomb” e o ótimo “All That You Can't Leave Behind”, passando por clássicos como “The Joshua Tree” e “Boy”. Existem também versões alternativas para algumas canções como “Sometimes You Can´t Make It On Your Own” e lados b de singles, como o bonito cover de “Neon Lights” do Kraftwerk, que o Luna já tinha coverizado brilhantemente anos atrás.
O primeiro disco é U2 em estado bruto, com as guitarras de “Love You Like Mad”, a balada tão característica em “Smile”, os violões e a letra de “Flower Child” e a energia de “Jesus Christ”. O segundo traz algumas faixas já conhecidas das edições especiais dos primeiros discos, como “Saturday Night” e “Trash, Trampoline and The Party Girl”, conseguindo emocionar com “Summer Rain”, lado b do single de “Beatiful Day”.
“Medium, Rare & Remastered” não está a venda e só está disponível para quem tem a assinatura oficial do site da banda, que libera acesso a material exclusivo. No entanto, isso não é um grande problema nos dias de hoje, pois a compilação já está na rede há tempos. Com esses dois disquinhos bem prazerosos, o U2 consegue fazer que quase se esqueça o “No Line On The Horizon”, levando o ouvinte a acreditar novamente na banda, nem que seja por apenas alguns minutos.
Site oficial: http://www.u2.com/index/home

Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

"Hoje" - Lestics - 2009

Olavo Rocha e Umberto Serpieri da ótima banda Gianoukas Papoulas, criaram em 2007 um projeto paralelo chamado Lestics, lançando dois bonitos discos que passaram despercebidos por muita gente (inclusive este que escreve, que só foi escutar o trabalho no ano seguinte). “9 Sonhos” e “Les Tics”, não tinham maiores pretensões, mas com um forte alicerce no folk rock, acabaram por conquistar diversos ouvintes.
No decorrer do ano de 2008, Olavo e Umberto recrutaram para o projeto os músicos Marcelo Patu (baixo), Lirinha (guitarra) e Felipe Duarte (bateria), o que resultou em uma maior consistência e uma sonoridade mais encorpada. Agora em 2009, o Lestics apresenta mais um trabalho, “Hoje”, que como os anteriores é disponibilizado pela banda inteiramente para download gratuito em seu site oficial.
Em “Hoje”, o Lestics é uma banda em forma e não somente em conteúdo, inclusive nas composições, que quatro integrantes passam a dividir. O alicerce continua sendo o folk rock, que desta vez ganha tons mais “rock” do que “folk”. As letras, um ponto forte dos discos de 2007, continuam sendo um diferencial e transitam entre alguns sonhos e muitas dúvidas e conflitos pessoais, tocados ocasionalmente por alguma ironia.
“Plano de Fuga” abre o disco com violões fortes e os versos: “um fiapo de fumaça se desprende dos escombros (...), o seu plano de fuga deu errado (...), talvez nem tudo esteja perdido, a esperança é maior do que seus esforços (...), a esperança é quem faz a contagem dos corpos”. Das demais canções, pode-se destacar a ironia de “Mania de Organização”, a reflexiva “Um Bem, Um Mal”, o pop rock de “Sem Título Número 4” ou a quase doçura de “Leve”.
Em faixas como “Velho”, a banda consegue quase tocar o céu, em uma sublime canção sobre o passar do tempo. Em “Hoje”, o Lestics mostra uma sonoridade agradabilíssima, além de inteligente e bem produzida, merecendo uma atenção bem maior do que lhe foi concedida anteriormente, surpreendendo um pouco mais a cada nova audição e demonstrando no fim que a simplicidade, pode sim ser bem sofisticada.
O download dos três discos pode ser feito em: http://www.lestics.com.br

Sábado, 27 de Junho de 2009

"God Help The Girl" - God Help The Girl - 2009

O escocês Stuart Lee Murdoch já concebeu na frente da sua banda, o Belle And Sebastian, algumas pequenas obras primas como o disco “If You´re Feeling Sinister”, além de dezenas de excelentes canções no decorrer da carreira. Em 2009, Murdoch coloca mais uma pequena jóia no mercado, o disco do seu projeto God Help The Girl, que recebe o mesmo nome. Nele, encontramos um trabalho descompromissado, atemporal e bastante agradável.
O músico vinha ao longo dos últimos anos, compondo algumas canções que não conseguia enxergar na sua voz. Decidiu então fazer um concurso no qual escolheria cantoras para apresentarem essas canções. Nove foram as escolhidas, ficando o cargo de principal voz para Catherine Ireton, antiga conhecida e vocalista da banda The Go Away Birds, que já apareceu na capa do single “White Collar Boy” do Belle And Sebastian.
O projeto explora basicamente as mesmas sonoridades do grupo principal de Stuart Murdoch, no entanto insere outros olhares como a implementação do soul e do jazz. Outro ponto distinto é a participação de uma orquestra com 40 e poucos integrantes e os vocais femininos, que em vários momentos se assemelham aos “girls groups” dos anos 50/60 e a cantoras como Nancy Sinatra e Dusty Springfield.
“Act Of The Apostle” abre o disco com um violão dedilhado, para que um doce vocal feminino comande a melodia, que depois recebe a companhia de um piano jazzístico, conferindo uma atmosfera retrô toda especial. “God Help The Girl” é anos 60 total, “Funny Little Frog” é um soul bacanudo, “If You Could Speak” é deliciosa com seus assovios e estalados de dedos e “A Down And Dusky Blonde” fecha suavemente o álbum.
“God Help The Girl”, o disco, traz além de uma das capas mais bonitas do ano (sempre cortesia dos trabalhos em que integrantes do Belle And Sebastian estão envolvidos), uma sonoridade que é capaz de transportar o ouvinte para algumas décadas para trás e fazer esquecer um pouco os problemas do dia a dia. Em um dia a dia tão conturbado como o que hoje levamos, isso já é mais do que especial.
My Space: http://www.myspace.com/pleasegodhelpthegirl

Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

"Cine Privê" - Antonio Carlos Viana

Antonio Carlos Viana é um escritor sergipano, não muito conhecido do grande público, mas que tem um olhar bem peculiar sobre o mundo atual. É daqueles contistas que conseguem acertar o alvo na maioria das histórias, criando situações que poderiam muito bem ser mais estendidas. Sua visão de mundo traz uma falta de esperança na condição do ser humano, que apesar de cruel em determinados momentos, tem completa razão de existir.
Seu mais recente trabalho é “Cine Privê”, com 128 páginas, lançado esse ano pela Companhia Das Letras, com 20 contos, a grande maioria inéditos. Na epígrafe, logo nos deparamos com uma frase do profeta Isaías que diz que “toda cabeça está enferma e todo o coração abatido”. Essa pequena frase realmente serve para indicar uma boa parte do será visto na leitura que se apresentará nas páginas seguintes.
A maioria dos contos é narrado em primeira pessoa, trazendo crianças para a narrativa, onde a relação de “inocência x realidade” é explorada sem floreios ou fantasias. Nos contos de “Cine Privê” não há redenção em momento algum, esta não se faz presente no rol do autor. Até o humor utilizado em alguns momentos, aparece trágico, como se extraído de alguma peça grega antiga.
Em “Santana Quemo-Quemo” vemos um garoto que ao ver sua casa destruída pelo governo, por estar em uma reserva ambiental, se desespera pela comida que está no fogo e não percebe o verdadeiro problema. “Duas Coxinhas e Um Guaraná”, traz as reflexões de um jovem que após matar a mãe vai para uma lanchonete comer. O conto que dá nome ao livro é sobre um senhor que faz a limpeza de um cinema onde os homens vão ver shows eróticos e se “aliviar”.
E assim os personagens vão sucedendo seus dramas em “O Amor de Isa e Nane”, “Moonlight Serenade” ou “O Rei das Trocas”. Antonio Carlos Viana apesar de ter passado boa parte da sua vida morando em cidades como Rio de Janeiro, Porto Alegre e Paris, consegue voltar o seu olhar para realidades específicas do nordeste brasileiro de modo bem contundente. “Cine Privê” é um retrato nada glamuroso do mundo atual, que vale a pena ser lido.

Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

Ataque Fantasma lança "Campanha Copyleft"

Salve, salve minha gente amiga...

O chapa Elder Effe (à direita), lança uma campanha interessante da sua banda Ataque Fantasma: A Campanha Copyleft. A banda disponibiliza os seus dois Ep´s, “Zero” de 2007 e “Croma” de 2009 em pacotes separados, onde é permitido a execução pública, desde que para fins não comerciais.

Os pacotinhos estão bem bacanas, com faixas em qualidade de 256kpbs, encarte completo em alta resolução, videoclipe ao vivo, letras, cifras, fotos e papel de parede. Como diria um samba antigo: “é luxo só”.

Pegue o seu logo abaixo e curta canções como “Central” (uma das canções do ano de 2007, aqui pela casa) e “Ludo”:

Paz Sempre!!

Terça-feira, 23 de Junho de 2009

"Loki - Arnaldo Baptista" - 2008

Arnaldo Baptista é o tipo de artista que merece com todas as honras o status de gênio. No final dos anos 60 a frente dos Mutantes, junto com seu irmão Sérgio Dias e sua então esposa Rita Lee, promoveu uma mudança abrupta na música nacional, ao unir diversos estilos com o rock, formando uma identidade única, que seria o grande chamariz do movimento conhecido como Tropicália.
Envolto a toda a sua genialidade, Arnaldo Baptista andou boa parte da vida por caminhos tortuosos, envolvido em loucuras, tentativa de suicídio e ostracismo profissional e pessoal; o bastante para lhe dar a aura de mito. O diretor Paulo Henrique Fontenelle, resolveu criar em cima do mito um documentário, que visa não somente glorificar o trabalho do artista, como explicar a sua influência dentro da música.
“Loki” (o título vem de um clássico disco solo de 1974), após ser apresentado em festivais, ganha exibição comercial em algumas capitais do país. “Loki” é daqueles filmes extremamente necessários, que mostram a vida de um ser humano diferente da grande maioria. O longa de Paulo Henrique Fontenelle, consegue envolver o espectador e lhe repassar fartas doses de alegria e tristeza.
A história de Arnaldo é mostrada pelo olhar de amigos, assim como de jornalistas (Tárik de Souza e Nelson Motta) e outros músicos como Tom Zé, Gilberto Gil, Sean Lennon, Devendra Banhart e Kurt Cobain (fã confesso da banda). Dos Mutantes, falam o irmão Sérgio Dias, o baixista Liminha e o baterista Dinho Menezes, faltando evidentemente Rita Lee, que não quis participar do projeto, apesar de ter liberado imagens suas.
Indo desde a primeira banda, O’Seis, até a volta em São Paulo com o show para mais de 80.000 pessoas em 2008, o filme passa pela trajetória dos Mutantes, a saída de Rita Lee e sua separação de Arnaldo, a continuidade dos Mutantes, totalmente sem rumo, as buscas de se reerguer com discos solo e trabalhos com a Patrulha do Espaço, a tentativa de suicídio e a recuperação ao lado de Lucinha Barbosa.
Com muitas imagens raras, que funcionam para dar um charme ainda maior ao trabalho, “Loki” traz genialidade em estado bruto, agregada em música, drogas, brigas, arrependimentos, desvarios, impaciência e pedidos de perdão. É a história de uma vida que ao ser quebrada reencontrou o caminho para seguir em frente. Ao sair do cinema, o sentimento é um misto de fascínio e aperto no coração, sendo impossível ficar indiferente.

Domingo, 21 de Junho de 2009

"Battle For The Sun" - Placebo - 2009

O Placebo tem lugar de destaque dentro do cenário alternativo dos últimos 12 ou 13 anos pelo menos. Mesmo sem ter lançado nenhum grande disco por completo (talvez, exceção feita ao “Without You I´m Nothing” de 1998), cravou no decorrer dos anos hits como “Every You Every Me”, “Special K” e “This Picture”, que ao lado de outras músicas como “Black-Eyed” e “The Bitter End”, serviram de trilha sonora para muita gente.
A banda de Brian Molko sempre teve três, quatro, ou até mesmo cinco ótimas músicas em seus discos, como por exemplo no bom “Meds” de 2006, último trabalho de estúdio, que trouxe “Drag”, “Infra-Red”, “Blind” e “Song To Say Goodbye”, o que sempre lhes ajudou a cativar fãs e mais fãs e ter um grande repertório em mãos para os shows. Quem já viu a banda ao vivo, sabe que é difícil ficar sem cantar na maior parte do tempo.
“Battle For The Sun”, sexto trabalho da carreira, a principio trazia a mesma expectativa, teríamos algumas canções para entrar nos shows e tocar nas pistas descoladas, entre outras sem tanto brilho. Infelizmente, “Battle For The Sun” passa longe disso. Com produção de David Bottrill (Muse) e mixagem de Alan Moulder (Nine Inch Nails), temos um trabalho que busca uma nova sonoridade, não conseguindo se encontrar.
O baterista Steve Hewitt saiu para a entrada do jovem Steve Forrest e isso é outro ponto negativo. Comparado com Hewitt, o novo integrante perde de goleada. As letras meio depressivas e as baladas de cortar os pulsos, uma marca registrada, estão quase ausentes, assim como o baixo pulsante de Stefan Olsdal. “Battle For The Sun” é sem dúvida o trabalho mais alegre do grupo, não que haja problema nisso, mas tudo soa forçado demais.
O disco vai passando e algumas situações até constrangedoras são apresentadas, como as palmas de “Kitty Litter”, a pretensa alegria de “Bright Lights”, o ritmo de “The Never-Ending Why”, ou a eletrônica inicial de “Julien”. Na sua batalha pelo sol, o Placebo consegue com muita boa vontade adicionar mais duas canções para a lista das suas melhores, “Speaking In Tongues” e “Breathe Underwater”, o que é muito pouco para quem está acostumado a mais.
Sobre “Meds”, passe aqui.
Site Oficial: http://www.placeboworld.co.uk
My Space:
http://www.myspace.com/placebo

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

"The Eternal" - Sonic Youth - 2009

Uma banda que chega ao 16º disco de carreira, sem nunca ter abrido mão da sua arte em troca de valores comerciais, merece no mínimo uma longa seqüência de aplausos. Adicione a isso que esse 16º trabalho de estúdio não soa datado, morno e sem inspiração, pelo contrário, esbanja vigor e ótimas canções. Assim é o Sonic Youth, uma das bandas mais importantes da história do rock alternativo e influência para tantas e tantas outras.
Depois de lançar um excelente registro em 2006 (“Rather Ripped”), o Sonic Youth parece ter retomado a velha forma e continua em excelente fase. Em “The Eternal” lançado agora em junho pela Matador Records (o grupo saiu da Geffen), Thurston Moore, Kim Gordon, Lee Ranaldo e Steve Shelley, agora com a ajuda de Mark Ibold (ex-Pavement) no baixo, cravam mais um trabalho de qualidade na sua discografia.
Nos primeiros cinco segundos da música de abertura, “Sacred Trickster”, você já percebe estar na frente de uma canção deles. Kim comanda o vocal em um rock cru de apenas dois minutos e pouco. “Anti-Orgasm” que vem em seguida, lembra bem o “Daydream Nation”, clássico de 1987 e traz Thurston Moore em dueto com Kim Gordon, assim como as tradicionais variações de ritmo nos seus seis minutos de duração.
A partir das duas faixas iniciais, o disco passa por momentos mais curtos e com certo apelo pop em “Leaky Lifeboat (For Gregory Corso)”, “What We Know”, “Poison Arrow”, “Thunderclap For Bobby Pyn” e “Malibu Gas Station”, outros mais longos e viajantes como “Antenna”, “Walkin' Blue” e “Massage The History”, além de coisas mais desvirtuadas e enérgicas como “Calming The Snake” e “No Way”.
Escutar um disco do Sonic Youth é como ver um filme do Woody Allen, ler um livro do Nick Hornby ou assistir um episódio de Friends, já sabemos mais ou menos o que vai acontecer, qual a dinâmica dos acontecimentos e a estrutura em que eles estarão dispostos, mas mesmo assim sempre nos divertimos e no meio de tudo, conseguimos extrair pequenos momentos de rara maestria.
Mais Sonic Youth aqui, aqui e aqui.
Site Oficial:
http://www.sonicyouth.com
My Space:
http://www.myspace.com/sonicyouth

Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

“Um Romance de Geração” - Sérgio Sant’anna

Refletir os dramas e realizações de uma geração não é tarefa das mais fáceis. Ainda mais de uma geração que esteve na linha de fogo, seja com armas ou com palavras, durante os anos mais tristes da história nacional, quando a ditadura militar aqui se impôs. O escritor carioca Sérgio Sant’anna, responsável por obras do nível de “Confissões de Ralfo” de 1975 e “Um Crime Delicado” de 1997, partiu para essa reflexão, mesmo que de maneira anárquica.
“Um Romance de Geração”, originalmente lançado em 1980, logo após a anistia durante o governo do General Figueiredo em 1979, ganha uma nova edição este ano pela Companhia Das Letras. Formatado em uma estrutura de peça de teatro, que deveria ser de três atos, mas que acabou somente em um, que se estendeu bastante, este romance olha de uma maneira inconseqüente e errática para a herança dos que viveram os anos 60 e 70 no Brasil.
O personagem principal é Carlos Santeiro, um escritor mineiro que apesar de ter lançado um livro de sucesso na época da ditadura, se encontra envolto a fantasmas pessoais, crises existências e falta de inspiração. Carlos recebe em uma noite qualquer no moquifo onde mora em Copacabana, a jornalista Clea, que está escrevendo uma matéria sobre a literatura brasileira no período de regime militar e seus legados.
Ao recebê-la Carlos começa um veemente ato teatral, onde liberta uma verborragia confusa ao mesmo tempo em que fascina, citando durante seus pontos de vista, nomes como Zico, Rimbaud, Edgar Allan Poe, Fernando Pessoa e John Cage. O jogo entre Carlos e Clea, vai ganhando em tensão no decorrer dos diálogos, que variam entre longos monólogos e pequenas passagens repletas de cinismo.
Aditivado com muita vodca barata, o clima do livro vai fluindo para que os dois se entrelacem em uma aventura sexual, que ao que parece já estava mais ou menos programado na cabeça dos dois. Em “Um Romance de Geração”, Sérgio Sant’anna apresenta um retrato nada encantador e repleto de desilusões e perdas de uma época menos encantadora ainda. Interessantíssimo.

Segunda-feira, 15 de Junho de 2009

"Rock 'n' Roll" - Erasmo Carlos - 2009

“O mundo me chamou pra jogar, vítima de tal esperteza, pus a vida na mesa e resolvi topar, apostei no risco, paguei e não vi...”, canta o eterno tremendão Erasmo Carlos na primeira faixa de seu novo trabalho, intitulado simples e puramente de “Rock 'n’ Roll”, um retrato da sua vida. Erasmo tem moral de sobra para soltar um disco com esse nome, mesmo aos 68 anos, visto que na maioria das vezes se manteve fiel ao estilo no decorrer da sua caminhada.
Mas em 2009, o que podemos esperar de um novo disco do cantor? O de sempre, nada mais. E isso é bom. Sendo detentor de alguns grandes discos da história do rock brazuca, como “Erasmo Carlos e Os Tremendões” de 1970 e “Carlos, Erasmo” de 1971, e bons trabalhos recentes como “Pra Falar de Amor” de 2001 e “Erasmo Convida - Volume II” de 2007, em “Rock 'n’ Roll”, parece que ele novamente se sente totalmente a vontade.
Ao contrário do que o título do trabalho pressupõe, nem só de rock vive o registro. Nas músicas, temos tanto a pegada básica dos anos 50, quanto a sonoridade dos 60 e toques de country e blues, como também há espaço para as tradicionais e famosas baladas. Erasmo esbanja todo seu charme nas doze inéditas que apresenta, indo tranquilamente do romantismo ao brega, do bom humor a ironia.
Liminha foi o responsável pela produção e toca também baixo, guitarra e ukelele. Além dele, algumas feras do circuito nacional marcam presença, como Dadi no baixo e guitarra, Cesinha na bateria e Alex Veley nos teclados, além de Pedro Dias e Luiz Lopes da banda Filhos de Judith nos vocais. As canções são parcerias com Chico Amaral, Nelson Motta, Nando Reis, o próprio Liminha e até Patrícia Travassos.
No geral, sobressaem-se “Jogo Sujo”, “Cover”, com Erasmo brincando na letra, para decretar no encarte: "Ofereço este disco ao meu cover...Que sou eu mesmo", a malandragem de “A Guitarra É Uma Mulher” e “Um Beijo é Um Tiro”, a citação de Sharon Stone, Marisa Monte e Capitu em “Olhar de Mangá”, a autobiografia na triste “Vozes da Solidão” e a diversão de “Noite Perfeita (Uma Farra no Tempo)” e “Encontro às Escuras”.
Aos 68 anos, o “Tiranossaurus Rex” do rock nacional, como escreve Rita Lee em seu site oficial, lança um disco com a sua cara, representando ao fim de tudo e em última análise uma bonita homenagem própria para toda a sua carreira.
Site Oficial: http://www.erasmocarlos.com.br
My Space:
http://www.myspace.com/erasmocarlos