terça-feira, 10 de novembro de 2009

"500 Dias Com Ela" - 2009

A história já conhecemos, sabemos de cor, mas nos resta aprender como diria uma velha canção. Um cara conhece uma mulher, ambos começam a se relacionar e em determinado momento o desejo inicial vai se extinguindo para um lado ou para o outro, o que acaba por terminar a história. Algumas vezes ainda há o carinho, a amizade, mas a paixão foi embora e usando uma frase do escritor Roberto Freire: “sem tesão não há solução”. Não mesmo.
“500 Dias Com Ela”, filme que estreou semana passada nos cinemas do país, marca o primeiro longa do diretor Marc Webb, que já possuía uma carreira respeitada no mundo dos videoclipes. Essa leitura rápida em muitos pontos se apresenta no filme, com recursos diversos como animação, tela dividida e danças para contar a história. Outra marca da sua época anterior é a trilha sonora, extremamente bem escolhida e que funciona até como coadjuvante.
Com uma narração em “off”, “500 Dias Com Ela” marca os quase 17 meses em que Tom Hansen (Joseph Gordon-Levitt), um arquiteto que ganha a vida em uma empresa que faz cartões de felicitações conhece Summer (a sempre brilhante Zooey Deschanel), que passa a trabalhar no mesmo escritório que ele. Quase que de imediato Tom se apaixona e a partir de uma ótima cena envolvendo um elevador e uma música dos Smiths, Summer se interessa também.
Os 500 dias do relacionamento entre os dois são entrecortados pelo diretor de modo aleatório, jogando na parede os momentos bons e ruins, altos e baixos tão comuns em um namoro. Acontece que Tom se apaixona demais e começa a pensar em ficar com Summer para o resto da vida. Summer não. Ela não acredita propriamente no amor e prefere levar a vida sem maiores obrigações. Sente carinho por Tom, mas passa longe de ser amor.
“500 Dias Com Ela” está sendo considerado o filme indie do ano e tem mesmo o jeitão para carregar esse rótulo. No entanto, é um pouco mais que isso. É uma bonita história, recheada de momentos engraçados e com uma trilha sonora que vai complementando os humores do seu personagem principal. No final ainda consegue surpreender de maneira simples e cotidiana. Vale muito a pena ser visto. Satisfação garantida.

domingo, 8 de novembro de 2009

Festival Planeta Terra - Playcenter (SP) - 07.11.2009

A versão 2009 do Planeta Terra em São Paulo prometia muito, bem mais que a do ano anterior que trouxe nomes como The Jesus And Mary Chain e Breeders. Para o público que foi em torno de 17 mil pessoas (menos que o ano anterior por “culpa” do Festival Maquinaria que foi realizado no mesmo dia), a promessa se cumpriu com sobra. Momentos históricos foram presenciados no Playcenter, o lugar escolhido para o evento.
Aliás, a primeira nota é sobre o local. Por que não ocorreu a ninguém essa idéia antes? Ao usar uma estrutura já existente a organização acertou em cheio, com acesso fácil ao local (faltou melhorar a saída) e segurança. Ótima idéia. Tomara que existam mais eventos por lá. Cheguei ao local por volta das 18:00hs quando o Maximo Park subia no palco principal para iniciar sua apresentação. Antes teve as brazucas Macaco Bong e Móveis Coloniais de Acaju.

O Maximo Park focou seu show no novo disco “Quicken The Heart” e jogou seu indie rock sobre o dia que começava a ir embora. O vocalista Paul Smith deu uma aula de simpatia, enquanto o tecladista Lucas Wooller fazia movimentos frenéticos. O show foi correto, sem maiores surpresas e em músicas como “Our Velocity” e “Girls Who Play Guitars” do seu melhor disco “Our Earthly Pleasures” de 2007, levantou boa parte do público.

Depois foi a vez de Bobby Gillespie comandar o seu Primal Scream em um dos grandes shows da noite. A banda fez dançar no Planeta Terra. Quando Gillespie mandava faixas como “Suicide Bomb”, “Movin' On Up”, “Rocks” e “Accelerator” era impossível resistir, o jeito era balançar o corpo e envergar mais uma cerveja. Alternando rock direto com faixas eletrônicas e englobando quase toda a sua carreira, o Primal Scream foi hipnótico, mesmo que seu desempenho de palco não seja lá essas coisas.

Na seqüência veio o Sonic Youth. O que dizer da banda, uma das maiores de todos os tempos? O grupo que sempre foi conhecido por não fazer concessões, manteve isso como premissa no Planeta Terra. O show teve como base o último disco “The Eternal” e trouxe canções como “Poison Arrow” e “Anti-Orgasm” junto com as ótimas “Sacred Trickster” e “Leaky Lifeboat”. Das antigas, destaque para “Jams Run Free” e “Hey Joni”.
A chuva que ameaçava cair, se fez presente de maneira leve durante quase toda a apresentação. Thurstoon Moore e Lee Ranaldo arremessavam riffs e distorções enquanto Kim Gordon dançava loucamente desajeitada e Mark Ibold (Pavement) fazia a cama no seu baixo junto com Steve Shelley destruindo a bateria. “Death Valley '69” do longínquo “Bad Monn Rising” de 1985 fechou de maneira sublime. Apesar do show ter sido bom, ficou a impressão que podia ser melhor, bem melhor.

Meia noite em ponto, a lenda Iggy Pop subia ao palco junto com os remanescentes do Stooges, emendando logo de cara faixas como “Search And Destroy” e “Raw Power”. Logo nos primeiros 20 minutos, Iggy já ganhava o titulo de melhor show do festival. Disse que estava se sentindo sozinho e mandou os fãs subirem para ajudar. Mais ou menos uma centena obedeceu e fez uma orgia memorável no palco. Depois Iggy agradecia dizendo que se sentia melhor.
O som das guitarras pulsava forte nas caixas enquanto Iggy ensandecido se jogava no público, arremessava microfones, quebrava pedestais e se contorcia no palco. Vieram mais clássicos dos Stooges como “1969” e “I Wanna Be Your Dog” (cantado fortemente pela galera) e outros da carreira solo como “Lust For Life” (em uma versão inesquecível) e “The Passenger”. Ao final o público estava boquiaberto e revigorado. Show histórico.
Outras bandas passaram pelo Planeta Terra 2009 como Metronomy, Patrick Wolf e The Ting Tings mas como as apresentações se cruzavam, ficava difícil resistir ao poder do palco principal. No final de tudo, com várias cervejas consumidas, algumas imagens passavam na cabeça de modo repetido, imagens de um festival que deu um verdadeiro banho de organização e estrutura e proporcionou alguns momentos para serem levados para o resto da vida.
P.S: O festival também pode ser entendido por alguns números, tais como: “Quantos “Obrigado São Paulo” Paul Smith do Maximo Park disse? Quantas vezes Bobby Gillespie olhou para o chão no show do Primal Scream? Quantas guitarras Thurstoon Moore e Lee Ranaldo usaram? Quantos microfones Iggy Pop quebrou? E acima de tudo: Quantos sorrisos você deu enquanto prestigiava tudo isso?
As fotos foram extraídas do site do Planeta Terra, aqui nesse
link.

sábado, 7 de novembro de 2009

Ludov - Studio SP (SP) - 06.11.2009

Sexta feira com show do Ludov na capital paulista, mais precisamente no Studio SP situado na Rua Augusta, que estava com movimento para todos os lados como de costume. A banda da vocalista Vanessa Krongold está na turnê do novo disco, “Caligrafia”, lançado esse ano e que vem angariando criticas boas e indiferentes quase que na mesma proporção. Ao vivo é sempre outra história, então pelo histórico de shows anteriores a expectativa era boa.
Na abertura, o projeto Brothers Of Brazil dos irmãos João Suplicy e Supla. Inusitado. Os temores iniciais foram dissolvidos após duas ou três músicas da dupla. As músicas são na sua grande maioria uma série de desencontros entre o violão de João e a bateria de Supla, mas o resultado acaba por parecer irreverente, absurdo e acima de tudo, engraçado. “Hinos” de Supla também são incluídos como “Japa Girl” e “Garota de Berlin” (essa cantada a plenos pulmões).
Chega a vez do Ludov e os conhecidos fãs ardorosos da banda começam a pular. O show vai passando, passando, passando e só encanta realmente nos hits antigos. Com um repertorio focado no já citado “Caligrafia”, as coisas não correm muito bem, o público não se sente de todo satisfeito e vai deixando a casa cada vez mais vazia. Pode até funcionar em outras ocasiões, mas nessa especificamente o grupo se mostrou pouco inspirado.
Da nova safra de canções, com um lado mais “maduro” da banda, apenas “Paris Texas” foi realmente bacana. Não por acaso é a música que mais remete aos trabalhos anteriores. Foi somente quando atacaram versões de “Estrelas”, “Princesa” e “Kriptonita” que o clima aumentou e ganhou em pressão, mostrando mais sorrisos espalhados entre um verso aqui e outro ali e seus acordes.
Ao sair do Studio SP sobre o som de “Alright” do Supergrass que rolava nas caixas, a impressão que ficava é que o Ludov ainda precisa aprender a conviver com seus trabalhos e postura mais recente, com o começo da carreira de discos como “O Exercício das Pequenas Coisas”, que trazia canções pop e rápidas que lhe moldaram toda uma imagem. Particularmente prefiro esse segundo Ludov, onde a diversão sempre era garantida.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

"Será Que Caetano Vai Gostar?" - Marcela Bellas - 2009

Diretamente da Bahia vem um dos discos mais interessantes da música nacional nesse ano. “Será Que Caetano Vai Gostar?” marca a estréia da cantora Marcela Bellas, que já tinha um Ep na carreira lançado em 2006. Gravado de maneira independente, o álbum traz parcerias com outros músicos como Helson Hart, além da regravação de “Bloco do Prazer” de Moraes Moreira e Fausto Nilo que Gal Costa já havia feito um ótimo trabalho anteriormente.
No meio de apostas recentes como Maria Gadú e Ana Cañas, Marcela Bellas consegue sair alguns bons passos na frente. Seu disco é tranqüilo, cotidiano, simples e direto. Agrada sem fazer muita força, o que sempre é um grande mérito. Logo na entrada com “Quando o Samba Quer”, a coisa já flui bem. Um sambinha torto com scratches e cheio de malemolência com referência direta na música baiana.
Em “Me Leve”, uma bonita balada que já constava no primeiro Ep, Marcela canta suave os versos: “se você for embora me leve, se você for passar a tarde fora me leve (...) me leve pra qualquer lugar, pra onde seu bloco passar”. Cantoras como Vanessa da Mata devem ficar pensando: “Porque não consigo fazer algo assim?”. “Esse Samba” homenageia artistas como Gilberto Gil e Dorival Caymmi enquanto o baixo toma conta com um groove forte e pesado.
“Alto do Coqueirinho” é um sambinha com pandeiro em destaque e letra meio Rita Lee, engraçada e pra cima. “Bloco do Prazer” ganha uma digna versão enquanto “Por Outro Lado” é outra bonita canção conduzida por violões. “Por Favor” é triste, uma típica canção de final de amor, com ótimas pitadas de ironia e algumas cortadas fulminantes. “Esse Samba” ainda volta no fim em uma boa versão remixada para fechar o disco.
Andando livremente sem pressa e sem compromisso pelas ruas da Mpb, Marcela Bellas visita lugares com influências modernas ao mesmo tempo em que honra antigas influências baianas. “Será Que Caetano Vai Gostar?” traz um clima que deixa o ouvinte em uma situação bastante agradável. Se continuar assim, ainda podemos esperar muita coisa boa de Marcela Bellas nos próximos anos. Ah, e se Caetano não gostar, azar o dele.
Site oficial, onde o disco está disponivel gratuitamente para download: http://www.marcelabellas.com.br

terça-feira, 3 de novembro de 2009

"Millennium - A Rainha do Castelo de Ar" - Stieg Larsson

Quando acompanha-se uma trilogia, seja ela no cinema ou na literatura, na hora em que o terceiro volume é disponibilizado consideramos como normal que já exista certa intimidade com os personagens e conseqüentemente uma torcida por um resultado desejado. Normal. O envolvimento acontece mesmo. Na trilogia “Millennium” do escritor sueco Stieg Larsson isso não foi diferente na chegada do seu derradeiro momento.
Em “A Rainha do Castelo de Ar”, que chegou as lojas recentemente pela Companhia das Letras em um conjunto de 688 páginas, a trama continua no instante imediato ao fim do segundo livro, com o jornalista Mikael Blomqvist nas mãos da polícia explicando os fatos que haviam ocorrido. A anti heroína (e bote “anti” nisso) Lisbeth Salander está sendo encaminhada para tratamento urgente em um hospital, pois está oscilando entre a vida e a morte.
Ao partir diretamente do final da trama do segundo livro e não explicar muito bem os fatos anteriores, o autor meio que exclui os leitores que se interessarem só pelo novo volume. Se faz necessário conhecer bem o terreno que está se pisando para curtir a história. O ritmo que se mostrou dinâmico e surpreendente em “A Menina Que Brincava Com Fogo”, aqui dá uma diminuída, inclusive com demasiadas descrições que poderiam muito bem ter sido suprimidas.
Para acabar com grande parte das dúvidas que ficaram pairando no ar, novos personagens são envolvidos e outros ganham mais espaço, sendo subdivididos em histórias paralelas. Nesse ponto, mérito para Stieg Larsson que consegue amarrar todas as pontas sem deixar lapsos relevantes jogados pelo caminho. A mescla de estilos neste último volume também é interessante. Enquanto Lisbeth Salander busca provar sua inocência, agora perante o tribunal, esses estilos se convergem de maneira bem funcional.
A trilogia “Millennium” nas suas 1.820 páginas totais, tem o grande poder de quase sempre deixar o leitor na espera do que irá acontecer, preocupado com os caminhos que irão ser projetados. Não é uma obra perfeita ou que mereça a alcunha de primordial ou clássica, no entanto somente o fato acima, mais a simples categoria de seu autor de mexer em vários temas espinhosos ao mesmo tempo, já lhe sustenta a indicação para quem gosta do gênero policial de suspense. Agora é esperar pelo filme que virá.
Falamos sobre os volumes I e II, aqui e aqui.
Site oficial:
http://www.trilogiamillennium.com.br

domingo, 1 de novembro de 2009

"Pergunte ao Pó" - John Fante

Sabe aquele velho lugar comum do “este livro você precisa ler antes de morrer?” Sabe né? Pois é. Apesar de ser aplicado a obras sem tanto valor assim, algumas vezes o velho clichê pode ser plenamente utilizado. Um desses casos é quando se fala de “Pergunte ao Pó” do escritor norte americano John Fante, lançado originalmente em 1939 e que esse ano ganha uma nova reedição pelas mãos da Editora José Olympio, com 206 páginas.
“Pergunte ao Pó”
é tido como influência por uma grande gama de escritores. Junto com Henry Miller provavelmente foi a maior fonte de inspiração para nomes como Jack Kerouac, Allen Ginsberg e Charles Bukowski, podendo colocar no bolo inclusive gente mais nova como Chuck Palahniuk. O livro ganhou inclusive uma versão cinematográfica (bem mais ou menos por sinal) há alguns anos atrás, com Colin Farrell no papel principal.
Mas o que faz desse livro algo tão especial assim? Primeiro a maneira que John Fante escreve, sem modismos ou moldes, segundo o ritmo que ele imprime a trama, que vai surgindo frenética e alucinada e por último o seu personagem principal, o escritor filho de italianos Arturo Bandini que na Los Angeles dos anos 30, vive entre o sonho e a desilusão na ânsia de se tornar um grande astro em um país devastado pela crise de 1929 e com a segunda grande guerra em andamento.
Na busca pelo seu sonho de sucesso, Bandini mantêm uma relação quase quixotesca com seu editor, que vai aprovando para publicação um conto aqui e outro ali, lhe mandando quantias por isso que são logo devidamente consumida em prazeres carnais e ilusões. No meio do caminho conhece uma garçonete de nome Camilla, pela qual se apaixona imediatamente e passa a jogar um jogo que não está nem perto de se sentir preparado.
Enquanto a relação com Camilla vai entrando em uma espiral inconseqüente de loucura, frustrações e prazer, Bandini se vê cada vez mais perdido entre o que almejava para sua vida e o que ela começa a oferecer no meio de tanta lama. “Pergunte ao Pó” é daqueles livros para se ter em casa, guardado em um lugar junto com outras obras do mesmo calibre, para ser revisitado vez ou outra. Literatura cativante, enérgica, criativa e olhando de certa forma, única.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

"Up Frow Bellow” - Edward Sharpe & The Magnetic Zeros - 2009

O movimento hippie e seus conceitos já passaram pela música faz um bom tempo. Por volta de 30 ou 40 anos atrás. Até os filhos gerados nessa época de paz, amor, sonhos e decepções já estão trilhando outros caminhos. No entanto ao escutar “Up Frow Bellow”, disco de estréia dos californianos do Edward Sharpe & The Magnetic Zeros, parece que para eles nada passou, pois aparentam ser os dignos descendentes da referida época.
O grupo é comandado por Alex Ebert (não, não existe nenhum Edward Sharpe na banda), que lidera entre nove e treze integrantes de modo itinerante, saindo para se apresentar Estados Unidos afora viajando dentro de um ônibus. A sonoridade é um folk rock com fartas porções de psicodelia, influenciado por bandas antigas como Grateful Dead, Jefferson Airplane e The Mamas And The Papas e por outras mais recentes como o Arcade Fire.
Essencialmente “Up From Bellow” é um disco para cima, vibrante, com backing vocals em vários momentos. Em outras faixas soa contemplativo e até mesmo um pouco sombrio. O começo com “40 Day Dream” e “Janglin” (em que a banda cita a si mesmo) não empolga tanto, mas depois da terceira faixa que dá nome ao disco, o clima melhora bem. A música é um indie country que traz letras como: “Eu tinha apenas cinco anos quando meu pai me disse que ia morrer.” Para baixo não?
“Carries On” que vem na sequência é uma bela canção. Simples, singela e apaixonante. Jade” flerta com Bob Dylan para contar a história de uma garota que encanta onde passa, que atrai pessoas só para vê-la. “Home” é cheia de assobios, para cima, com vocal dividido entre homem e mulher e letra que trata de uma relação amorosa. “Desert Song” é atmosférica, com vocal forte e um climão estilo Arcade Fire no ar. "Black Water” é introspectiva e melódica.
“Come In Please” lembra Jefferson Airplane, versa sobre se encontrar e traz referências a “Sympathy For The Devil” do Rolling Stones mais ao seu final. “Simplest Love” é curta, com letra boba e emula paisagens mais etéreas. “Kisses Over Babylon” é uma tremenda confusão de espanhol com inglês e poderia ter ficado de fora. “Brother” vem somente no violão e fala de família e culpa, enquanto “Om Nashi Me” fecha tudo na maior loucura e lisergia.
“Up From Bellow” do Edward Sharpe & The Magnetic Zeros passa longe do disco que vai mudar sua vida, mas ao fugir um pouco que seja do salão central em que a maioria das bandas de hoje em dia senta para conversar, acaba por trazer um resultado interessante de ser ouvido. Talvez a banda nem dure muito, só baste esse disco para Alex Ebert cansar e partir para outra das suas empreitadas malucas. O melhor é aproveitar enquanto ainda existe.
Site Oficial: http://www.edwardsharpeandthemagneticzeros.com
My Space:
http://www.myspace.com/edwardsharpe

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

"Bastardos Inglórios" - 2009

“Bastardos Inglórios” é o filme que o diretor Quentin Tarantino precisava fazer depois de passados tantos anos do seu “Pulp Fiction” e o alvoroço que ele causou na indústria. Desde “Pulp Fiction”, Tarantino participou de alguns projetos com amigos e criou filmes bacanas como a dobradinha “Kill Bill”, mas cada vez mais fechava a sua cartela de fãs para o seu estilo próprio e parecia não conseguir sair disso. Com “Bastardos Inglórios” a coisa muda de figura.
No seu novo filme, o diretor tão cultuado e odiado, consegue criar novamente uma obra que deixa o espectador com um sorriso de satisfação completo ao sair do cinema. Usando a França ocupada pelo império alemão na Segunda Guerra Mundial como cenário, subverte totalmente os filmes sobre esse momento histórico e cria uma trama onde personagens reais são mesclados com criações suas, tendo no cerne da batalha, a vingança, um de seus pratos preferidos.
Logo no ínicio do filme, uma grande cena já brilha aos olhos. Em uma fazenda no interior da França, o Coronel da SS Hans Landa (um trabalho impecável do ator Christoph Waltz) vai batendo papo com um fazendeiro da região sobre judeus desaparecidos. Hans Landa é conhecido como “O Caçador de Judeus” e a sua conversa com o fazendeiro cresce em tensão até chegar ao seu derradeiro final, promovendo um show de frases e gestos certeiros.
Do outro lado da trama, conhecemos o Tenente Aldo Raine (Brad Pitt impagável entre o louco e o engraçado), que comanda um grupo de mercenários que adentra a França com apenas dois propósitos: causar terror e matar nazistas. Do primeiro arco do filme, o que traz a visita do Coronel Hans Landa a fazenda, aparece anos depois a bela Shosanna Dreyfuss (Mélanie Laurent), que como sobrevivente cuida de um cinema em Paris de maneira silenciosa.
Tarantino vai unindo as histórias paralelas para chegar a um final que surpreende e traz momentos de um cinema realmente extraordinário. A violência que muitos dizem ser gratuita em seus filmes, dá aqui uma amenizada, não que seja menos forte por conta disso, mas aparece menos. A verdadeira violência de “Bastardos Inglórios” está nas suas frases e posturas dos envolvidos que em certo momento deixa todos praticamente iguais, os bons e os maus.
Com “Bastardos Inglórios”, Tarantino novamente volta a ser comentado pelos quatro cantos do mundo. Sem dúvida, o filme é sua grande obra desde “Pulp Fiction”. Ao subverter o nazismo, destronar personagens de uma história sem sentido e transformar o Coronel Hans Landa, um “vilão”, no grande nome da película, passa a merecer novamente a alcunha de gênio. O trabalho de Christoph Waltz é uma atuação vibrante, irônica e poderosa e se consolida no ponto alto do filme. Grande filme de um grande diretor.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Mundo Livre S/A - Gold Mar Hotel (PA) - 25.10.2009

Domingueira em Belém, véspera de feriado. O sol já estava se encaminhado para sair de cena quando o “Esquenta” do 4º Festival Se Rasgum começava a acontecer. Na pauta da noite várias atrações bacanas e promessa de mais um grande show dos pernambucanos do Mundo Livre S/A na cidade. A banda deixou uma boa imagem para trás quando de maneira apoteótica encerrou o primeiro Festival Se Rasgum em 2006.
A primeira banda a subir no palco do ótimo ambiente do Gold Mar Hotel foi Pio Lobato & Suposto Projeto. Proposta interessante do sempre competente Pio Lobato. É esperar para ver se teremos novas coisas pela frente. Depois de algum tempo, o Metaleiras da Amazônia comandou um baile de ritmos paraenses e latinos. Todo mundo se balançando na platéia enquanto os metais sangravam e davam o rumo do show. Classe pura.
Depois de uma espera até relativamente grande, Fred 04 e sua trupe sobem para comandar o grande show da noite. Já vi alguns shows do Mundo Livre S/A na vida e nunca presenciei nada nem mais ou menos. Dessa vez não foi diferente. A banda atacou logo de entrada com “Bolo de Ameixa” do disco “Carnaval na Obra” de 1998 que tocou muito na MTV na época e a poderosa “Free World” do “Guentando a Ôia” de 1996. O clima estava criado.
Daí em diante a banda enfileirou hits como “Musa da Ilha Grande” (cantada pela galera), “Mexe Mexe” e “Pastilhas Coloridas” (com direito a coro forte no refrão), entre outras como “Homero, O Junkie” e as clássicas “Manguebit” e “A Bola do Jogo”. Fred 04 ditava o ritmo ora do cavaquinho mais metal da história, ora da sua guitarra. Fábio Malandragem não ficava atrás e moldava quase todas as canções com o groove forte do seu baixo.
Para o bis a banda deixou um momento lírico e outro para encerrar com tudo vibrando lá em cima. Primeiro a bela “Meu Esquema”, depois a cacetada de “Treme-Treme (Shakin ‘All Over) do disco “Por Pouco” de 2000. Fim de festa e algumas certezas circulam pela mente em comentários com os amigos presentes. A maior delas, sem dúvida, é que mesmo depois de 15 anos da sua estréia, o Mundo Livre S/A continua esbanjando categoria e boa música. Banda fodaça.
Site Oficial: http://www.mundolivresa.com

domingo, 25 de outubro de 2009

"Simplesmente" - Os The Darma Lóvers - 2009

Os The Darma Lóvers é o tipo de banda que carrega aquela velha afirmação do ame-a ou deixe-a. Isso ocorre tanto pelas letras das músicas e postura dos membros, com todo um lado espiritual envolvido, como no vocal da dupla Nenung e Irínia que podem desagradar ouvidos que buscam coisas mais fortes. Completando dez anos de estrada em 2009, a banda lança mais um disco, dessa vez pela Dubas, chamado “Simplesmente”, que para quem está dentro do lado do “ame-o” é plenamente agradável.
A sonoridade não mudou muita coisa nesses anos, ainda é vinculada ao folk rock com enxertos de psicodelia e música pop. Ouso até dizer que “Simplesmente” é o trabalho que melhor casa essa mistura. A culpa talvez seja da produção sempre precisa de Kassin, que dá uma alinhada geral e consegue equilibrar o lado espitual do grupo com toques mais cotidianos, formando uma bonita coleção de canções simples e leves para acalmar um pouco a vida.
O grupo além de Nenung (vocal e violão) e Irínia (vocal), conta ainda com 4nazzo (guitarras), Jimi Joe (guitarras), Thiago Heinrich (baixo e piano) e Sassá (percussão e bateria). Já na faixa inicial que carrega o mesmo nome do disco, temos uma idéia do que vem pela frente, com passagens como: “pois então a gente relaxa e decide tomar de vez a direção/daí tudo se encaixa e encontra um sentido/nada mais que a chance brilhante de ser, estar simplesmente/indo em frente com isso em que eu acredito”.
E assim as coisas vão se sucedendo, abrangendo temas diversos como morte, esperança, realização pessoal, amor, tranqüilidade e paz. Em “O Homem Que Calculava”, conduzida com bastante classe por violões, inspiram-se questionamentos da vida puramente material, para em outras como “Srta. Saudade da Silva” falar de amores perdidos em versos assim: “acho que não vou morrer de amor/e a saudade não mata porém/ fecho os olhos vejo teu rosto/e aqui dentro algo forte me vem”.
“Gente De Classe” é mais pesada (para os padrões do grupo), com direito até a guitarras distorcidas, enquanto em faixas como “Júlia” soam mais pop do que nunca. As letras e a postura dos Darma Lóvers poderia soar chata ou cansativa, mas passa distante disso. Em dias tão agitados, com violência explodindo para todos os lados, músicas como as que estão contidas nesse “Simplesmente” causam um bem até maior do que o esperado. Mesmo que essa não seja sua intenção primordial.
Site Oficial: http://www.darmalovers.com
My Space:
http://www.myspace.com/darmalovers

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

"Rita Lee Mora ao Lado: Uma Biografia Alucinada da Rainha do Rock" - Henrique Bartsch

“Rita Lee Mora ao Lado: Uma Biografia Alucinada da Rainha do Rock” já sai ganhando alguns pontos logo na entrada, por conta do titulo e da capa belíssima, cortesia do projeto gráfico de Luciana Porto Alegre. Mas o que seria o livro? Será que a nossa Santa Rita de Sampa resolveu escrever suas memórias? Nada disso, a história da rainha do rock nacional é revista através do olhar travestido de uma certa mulher que esteve sempre como testemunha ocular da sua vida.
O autor dessa biografia tresloucada é Henrique Bartsch, engenheiro civil e músico, colaborador de Carlos Calado no ótimo “A Divina Comédia dos Mutantes” e fã confesso da obra de Rita Lee. Na orelha do livro, Rita conta como teve conhecimento do trabalho do autor e deu seu aval para que a obra fosse publicada, insistindo que não censurou nenhuma parte. A leitura realmente indica esse caminho, pois lados não tão belos são apresentados.
Para contar a história, Henrique Bartsch criou uma personagem chamada Bárbara Farniente que passou toda a vida próxima de Rita Lee e que por vários acasos do destino, sempre esteve presente nas situações mais importantes que a envolveu. O recurso, interessante a primeira vista, funciona bem na maior parte do tempo e escorrega somente quando repete passagens e afirmações, como a maldição de Bárbara em nunca ver Rita tocar ao vivo.
Partindo desse personagem irreal, o autor vai arremessando casos e mais casos divididos em dois grandes capítulos que abrangem a vida antes e depois dos Mutantes, sem sombra de dúvida um marco na vida da homenageada. Com um linguajar simples e direto, sem muitos floreios, e em algumas passagens até com alguns vícios de linguagem que acredito ser opcional, a história vai envolvendo bem e o leitor fica sem saber onde acaba o real e começa a fantasia.
“Rita Lee Mora ao Lado” agrada na grande maioria das suas páginas, entrelaçando artistas consagrados como Gilberto Gil, Jorge Ben, Roberto Carlos, Elis Regina, Caetano Veloso e Tim Maia com a vida da personagem principal. Henrique Bartsch demonstra ser um grande fã e isso acaba por influenciar levemente a obra, como no caso da saída de Rita dos Mutantes, mas de modo geral isso não chega a comprometer o resultado final.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

"Woodstock" - Pete Fornatale

O festival de Woodstock não para de render novos produtos. No campo da literatura, temos outro livro a se aventurar para contar as aventuras e desventuras do clássico festival. “Woodstock” (“Back To The Garden” no original) de Pete Fornatale lançado no Brasil pela Editora Agir neste ano, traz a já conhecida história através de depoimentos de músicos, pessoas da produção, jornalistas e espectadores que lá estiveram presentes.
Pete Fornatale, o autor do livro, é um conhecido radialista e DJ na cidade de Nova York desde o final dos anos 60 e demonstra um conhecimento grande sobre os artistas envolvidos e a expressão musical da época. Os fatos são organizados e montados em três capítulos, um para cada dia do festival, sendo subdivididos em partes para cada artista de acordo com a sua respectiva ordem de apresentação.
O mais interessante desse novo rebento é que são apresentados artistas que na grande maioria dos textos sobre o assunto, acabam ficando de fora, como John Sebastian, Melanie, Arlo Guthrie, The Incredible String Band e Ten Years After, entre outros. Outro ponto bacana é que por contar a história por ordem de apresentação, o leitor acaba por se envolver mais e imaginar que faz parte da exata ordem das coisas.
O que no filme marcou uma geração e tomou ares de engraçado, mesmo através de um humor peculiar enxertado por doses e mais doses de drogas e álcool, neste livro ganha tons menos leves. O universo para o qual foi montado o festival mesmo recheado de paz, sem confusões ou brigas, era um imenso caos, onde falta comida e o devido suporte para necessidades sanitárias, o que leva a imaginar como não aconteceu uma tragédia, inclusive pela grande chuva que avançou em determinado momentos.
No mais é sempre interessante ouvir histórias já conhecidas e clássicas como a abertura de Richie Havens, a apresentação visceral de Joe Cocker e sua versão matadora “With A Little Help From My Friends” dos Beatles, o furacão chamado Santana e Jimi Hendrix no auge da sua forma entortando o hino nacional norte americano. “Woodstock” de Pete Fornatale, é uma leitura prazerosa, apesar de já sabermos de quase tudo que está lá descrito.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

"Distrito 9" - 2009

Invasões alienígenas formam um campo que já foi explorado até a exaustão no cinema. Tudo que o gênero poderia apresentar já havia sido feito, correto? “Distrito 9” que chega aos cinemas nessa semana prova que ainda pode haver algumas exceções a essa afirmação. O diretor Neill Blomkamp consegue utilizar de modo diferente a chegada de alienígenas ao nosso planeta e em cima disso amarra um filme com bastante referência política e social.
A história se inicia vinte anos depois de uma nave invadir os céus da terra causando muita confusão. Mas ao invés de guerras ou cenas futuristas, o mundo se deparou com milhares de extraterrestres desnutridos, acabados e exilados por aqui. Uma ótima sacada foi o lugar escolhido para a trama se desenvolver, a capital da África do Sul, Joanesburgo, ao invés das tradicionais cidades norte americanas como Los Angeles ou Nova York.
O governo sul-africano isola os aliens em campos fechados, que não demoram para virar uma grande favela, com população crescendo cada vez mais e o crime correndo solto em todas as suas vertentes. A analogia com o Apartheid que ocorreu no país é clara e incomoda em vários momentos, principalmente nas entrevistas do “documentário” que conduz o filme, onde os humanos usam frases que já serviram muito bem para os seus semelhantes.
O domínio da favela fica a cargo da MNU, uma empresa que serve para controlar as coisas no Distrito 9, mas que na verdade está mais preocupada em dissecar os extraterrestres para entender sua genética, assim como a tecnologia das suas armas. Quando da mudança para um novo lugar, a MNU, sob o comando do mesquinho e atrapalhado Wikus Van De Merwe (Sharlto Copley), se depara com uma forte resistência e sérios problemas.
No processo de desalojamento e transferência dos habitantes, Wikus entra acidentalmente em contato com um líquido negro, que começa a lhe dar enjôos e posteriores mutações. Desse ponto em diante, a história ganha em aventura, mas perde bastante em clareza e não consegue manter o bom ritmo dos seus primeiros 30 minutos, onde o manejo rápido da câmera e os comentários inconvenientes que são despejados geram um bom resultado.
“Distrito 9” teve um orçamento relativamente baixo para produções do gênero e mesmo assim gerou um grande lucro, causando alvoroço pela internet e recebendo as bênçãos de Peter Jackson (de um tal “O Senhor dos Anéis) que ficou com a produção. Mesmo recheado com boas idéias, o filme se perde depois da primeira metade e começa a demonstrar vários furos no roteiro, o que no final lhe acarreta apenas a alcunha de razoável. Podia ser mais.

sábado, 17 de outubro de 2009

"Never Cry Another Tear" - Bad Lieutenant - 2009

O que esperar de um álbum que tenha Bernard Summer? Canções pop com ótimas melodias é uma das respostas, acredito eu. Depois do fim do New Order, o músico inglês se juntou na casa de Alex James do Blur com Jack Evans no vocal e guitarra, Phil Cunningham (da formação recente do New Order) na outra guitarra e com o parceiro de tantas jornadas Stephen Morris na bateria, para montar sua nova banda, o Bad Lieutenant.
O disco tem o sugestivo título de “Never Cry Another Tear” (algo como “Nunca Chorar Outra Lágrima”) e é extremamente alegre até para os padrões de Bernard Summer. Traz uma roupagem rock que flerta com os anos 80 e com o britpop de maneira competente, por mais que não traga nada de novo ao mundo da música. Quando a primeira música “Sink Or Swim” começa, é fácil perceber o toque pessoal de Summer na canção.
Dividindo os vocais com Jack Evans, “Never Cry Another Tear” traz 10 músicas em 45 minutos, onde o pop é a palavra de ordem. Na já citada “Sink Or Swim”, o riff infalível faz a cama para o vocal adentrar o jogo e jogar frases como: “mas você vai nadar ou afundar?” pelo caminho. Passa pelo rock inglês dos anos 90 em “Summer Days On Holiday” e “This Is Home” e atravessa baladas como a bonita “Runaway” e “Head Into Tomorrow”.
Em “Shine Like The Sun”, apesar da entrada indicar um indie pop da nova safra, quando o vocal entra a música se converte no mais puro Echo And The Bunnymen. Não sei qual seria a opinião de Ian McCulloch ao ouví-la, mas acredito que até ele se assustaria. Em outras como “Poisonous Intent” parece que estamos em algum dia perdido da segunda metade dos anos 80. Tudo surge naturalmente e passa longe da cópia banal, seguindo apenas como canções.
Bernard Summer já cravou seu nome na história da música em bandas como o Joy Division e New Order. Esse seu novo projeto, parece ser apenas uma forma de seguir fazendo aquilo que mais gosta para viver. Se encarado dessa forma, sem maiores expectativas, “Never Cry Another Tear” pode fazer um bem danado, pois traz uma coleção de faixas com o toque indefectível desse artista, cabendo bem em vários momentos do nosso dia a dia.
Site Oficial: http://badlieutenant.net
My Space:
http://www.myspace.com/badlieutenantmusic

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

"Brega S/A" - 2009

O futuro da música está em jogo já há alguns anos com a derrocada das gravadoras e a extensão que a pirataria e os downloads via internet alcançaram. Em “Brega S/A”, documentário de quase uma hora lançado pela Greenvision Films, gravado entre 2006 e 2008 e disponível para download gratuito no seu site, Vladimir Cunha e Gustavo Godinho, (direção e edição) botam o dedo nessa ferida e em um fenômeno que abraça todo o estado do Pará.
O tecnobrega e suas inúmeras variações de nomenclatura é responsável por atingir a população do Pará, principalmente da sua capital Belém, de maneira avassaladora. É claro que a comparação com o funk carioca nesse caso se faz bastante presente, tanto pela qualidade das músicas, quanto pela forma de gravação, assim como pelo público atingido, na sua grande maioria das classes mais pobres, moradores da periferia.
Particularmente sempre entendi uma tremenda burrice a critica generalizada sobre o tecnobrega. Evidente que a qualidade é sofrível, atinge em diversos momentos a ilegalidade (via pirataria), no entanto tem um efeito social relevante, pois retira da faixa de miséria várias pessoas que se envolvem tanto na produção das músicas quanto nos eventos e todo o mercado que os cerca. Solução para miséria? Lógico que não, mas é inegável sua importância.
No documentário são apresentadas várias personalidades dessa indústria bizarra e lucrativa. Desde cantores como Maderito, o “Garoto Alucinado” e o DJ Maluquinho, como as aparelhagens que arrastam milhares nas suas festas, além de ícones regionais como o Dj Dinho do Tupinambá, que comanda um negócio que envolve inclusive programas de tv e rádio. Entre gravações de depoimentos e dos eventos em si, “Brega S/A” se desenvolve.
Em muitos pontos “Brega S/A” leva a questionar o futuro da música no que se refere a sua comercialização, assim como na sua banalização. O tecnobrega sem apoio de gravadoras, criou uma enorme escala de produção que atinge várias mídias e é divulgada diretamente pelos camelôs, os grandes responsáveis pela sua propagação. “Brega S/A” mostra uma indústria viva e voraz e sem tomar lados sobre sua qualidade e outras coisas, coloca para pensar. Vale bem a pena.
Site oficial para download: http://www.greenvision.com.br